Histórias de letramento acadêmico
a avaliação das práticas de leitura vivenciadas por professores universitários
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv19a2025-78Palavras-chave:
Letramentos acadêmicos, Histórias de letramento acadêmico, Leitura Acadêmica, Sistema de AvaliatividadeResumo
Há algumas décadas, sobretudo em razão da expansão e do acesso ao ensino superior no Brasil, é possível encontrar um volume significativo de pesquisas que se debruçam sobre os letramentos acadêmicos. Comumente, os estudos focalizam, direta ou indiretamente, o estudante e, ainda, os processos de produção textual de gêneros discursivos acadêmicos. São escassas investigações que se proponham a refletir sobre as histórias de letramento de professores universitários e os processos de leitura na esfera acadêmica. Na intenção de mitigar essa lacuna, faremos um recorte sobre as práticas pregressas de letramento de professores universitários e os processos de leitura por eles experimentados na esfera acadêmica, que, como sabemos, exigem não apenas capacidades cognitivas, mas também conhecimentos específicos sobre os gêneros, finalidades e expectativas próprios do contexto, o que significa levar em conta dimensões sócio-históricas e culturais em que se materializam. Analisamos as histórias pregressas de leitura vivenciadas por professores universitários em seus percursos formativos quando estudantes da esfera acadêmica, com foco nas avaliações que atribuem a essas práticas formativas. Como referencial teórico-metodológico, buscamos apoio nos estudos dos Letramentos Acadêmicos (Lea; Street, 1998, 2014; Kleiman, 2007; Botelho; Silva, 2022) e do sistema de Avaliatividade (White, 2003; Martin; White, 2005), deste mobilizando categorias do domínio Atitude: afeto, julgamento e apreciação. A pesquisa, de natureza qualitativo-interpretativista, foi desenvolvida com três professores de cursos de bacharelado de uma instituição privada do interior do Rio de Janeiro, por meio de entrevistas semiestruturadas. As análises evidenciam que, no que diz respeito ao afeto, os participantes associam suas experiências de leitura a sentimento de frustração, insegurança e sobrecarga; além disso, emitem julgamentos e apreciações críticos sobre práticas docentes marcadas pela ausência de mediação e por posturas autoritárias. As leituras são frequentemente avaliadas como complexas, pouco acessíveis e descontextualizadas, o que contribui para a exclusão simbólica no espaço acadêmico. Assim, os dados revelam que os desafios enfrentados não se restringem a aspectos cognitivos, mas envolvem dinâmicas sociais, afetivas e institucionais, apontando para a urgência de práticas pedagógicas mais dialógicas, inclusivas e sensíveis às trajetórias formativas dos sujeitos.
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