Teletandem e letramento racial crítico na educação em línguas adicionais

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14393/DLv19a2025-76

Palavras-chave:

Letramento racial crítico, Teletandem, Intercâmbio virtual, Aprendizagem de línguas

Resumo

Este artigo apresenta uma análise exploratória sobre as contribuições da perspectiva do letramento racial crítico (LRC) na educação para o teletandem. Teletandem é uma modalidade de prática de intercâmbio virtual para a aprendizagem de línguas que tem sido amplamente implementada institucionalmente em universidades, centros de línguas, e em outros contextos no Brasil e no exterior, conforme várias pesquisas têm documentado (Aranha; Cavalari, 2014; Garcia, 2015; Garcia; Souza, 2018; Souza, 2020). O teletandem foi implementado pela primeira vez em 2006, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), por meio do projeto Teletandem Brasil: línguas estrangeiras para todos (Telles; Vassallo, 2006). A iniciativa objetivava promover aprendizagem colaborativa e autônoma de línguas adicionais, por meio de sessões síncronas regulares de webconferência entre pares de aprendizes falantes de línguas diferentes, em que cada um busca aprender a língua nativa ou de proficiência do outro. O processo de aprendizagem nesse contexto prevê o suporte de mediação pedagógica realizada por professores e pesquisadores do campo da educação linguística (Salomão, 2008). Apesar de duas décadas de pesquisas sobre o teletandem, há uma carência de estudos que abordem as implicações das dimensões étnico-raciais no diálogo intercultural e nos processos de aprendizagem promovidos nesse contexto institucional de intercâmbio virtual. Nesse sentido, este artigo resulta de uma articulação entre o LRC e o teletandem, por meio de uma revisão dos princípios pedagógicos do teletandem - autonomia, reciprocidade e uso separado das línguas (Picoli; Salomão, 2020; Leone; Telles, 2016; Leone, 2022; Satar; Aranha; Cavalari; Almijiwl, 2024; Moore; Rampazzo, 2023; Lima-Lopes; Aranha, 2023) - e de uma análise qualitativa do LRC, fundamentada em publicações relevantes sobre o tema (Ladson-Billings; Tate, 1995; Mosley, 2010; Ferreira, 2004, 2006, 2007, 2015; Braúna; Souza; Andrade Sobrinha, 2022; Santos; Santos; El-Kadri, 2021). O estudo indica as contribuições do LRC para os estudos sobre experiências interculturais de aprendizagem em contextos telecolaborativos de teletandem, tais como o desenvolvimento da consciência de estudantes e professores acerca de raça e racismo no diálogo intercultural, bem como a promoção de um processo pedagógico comprometido com o antirracismo.

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Biografia do Autor

  • Micheli Gomes de Souza, Universidade Estadual Paulista (Unesp)

    Doutora  em Estudos Linguísticos, pela UNESP - São José do Rio Preto. Professora Assistente, área Ensino e aprendizagem de línguas, no Departamento de Educação (UNESP - Assis/SP, 2023 - atual).

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Publicado

30.12.2025

Edição

Seção

Educação linguística e cultural mediada por tecnologias digitais em um mundo multipolar contemporâneo

Como Citar

GOMES DE SOUZA, Micheli. Teletandem e letramento racial crítico na educação em línguas adicionais. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 19, p. e019076, 2025. DOI: 10.14393/DLv19a2025-76. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/78653. Acesso em: 14 jan. 2026.