“Sobre o que se fala”
organização do tópico discursivo de duas pessoas idosas com Doença de Alzheimer
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-7Palavras-chave:
Doença de Alzheimer, Narrativas, Interação, Sociocognitivismo, Tópico DiscursivoResumo
O envelhecimento populacional tem ampliado os desafios dos sistemas de saúde e das políticas públicas voltadas às pessoas idosas (WHO, 2018; McDade; Bateman, 2017). Nesse contexto, a Doença de Alzheimer (DA) é a principal causa de demência e caracteriza-se por um processo neurodegenerativo progressivo que afeta domínios cognitivos como memória, atenção, funções executivas e linguagem (Alzheimer’s Association, 2017). Apesar da ampla investigação científica, a DA é frequentemente abordada a partir de perspectivas centradas no déficit, que tendem a homogeneizar a experiência da doença e a reduzir a pessoa acometida às limitações do diagnóstico (Souza; Monteiro; Gonçalves, 2022). Em oposição a abordagens centradas no déficit, o estudo adota uma perspectiva sociocognitiva da linguagem, que compreende cognição e interação como processos indissociáveis (Koch, 2004; Jubran, 2006; Morato, 2012). Assume-se que as alterações linguístico-cognitivas na DA emergem da dinâmica interacional, repercutindo na organização do discurso e na participação comunicativa em contextos situados (Clark, 1996; Mira, 2019). O objetivo do artigo é analisar a organização do tópico discursivo em narrativas produzidas por duas pessoas idosas com DA em entrevistas semidiretivas. A análise fundamenta-se nos pressupostos da Linguística Textual, particularmente na noção de tópico discursivo enquanto categoria relacional e sociocognitiva, estruturada pelas propriedades de centração e organicidade (Jubran, 2006; Galembeck, 2011; Nascimento, 2012). Metodologicamente, trata-se de um estudo qualitativo e interpretativo que utiliza quadros tópicos para analisar relações hierárquicas e lineares entre supertópicos, tópicos e subtópicos ao longo da interação (Jubran, 2002; Fávero; Koch, 2012). Os resultados indicam que, apesar das alterações linguístico-cognitivas associadas à DA, os participantes mantêm engajamento discursivo, ainda que apresentem rupturas e instabilidades na gestão do tópico. Esses fenômenos não se configuram como falhas individuais, mas como efeitos da coconstrução interacional, evidenciando o papel do interlocutor na reancoragem e continuidade dos tópicos discursivos (Mentis; Briggs-Whitaker; Gramigna, 1995; Hydén; Örulv, 2008). Ao tomar o tópico discursivo como eixo analítico, o estudo contribui para deslocar leituras estritamente deficitárias e ampliar a compreensão da participação linguística de pessoas idosas com DA em contextos interacionais.
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