O verbo anafórico fazer em estruturas conformativas e em orações comparativas
variação linguística no português contemporâneo
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-17Palavras-chave:
Verbo fazer, Anáfora, Estruturas conformativas, Orações comparativas, Variação linguísticaResumo
Neste trabalho, discute-se o uso do verbo anafórico fazer, usado isoladamente ou em combinação com o clítico demonstrativo o, formando uma locução anafórica complexa (possivelmente descontínua) fazer+o, em dois tipos de construções sintáticas, que apresentam propriedades gramaticais particulares, parcialmente comuns entre si: estruturas conformativas introduzidas pelo conector como, ou variantes suas como tal como (e.g. o Governo aumentou os impostos este ano, (tal) como já (o) tinha feito o ano passado), e orações comparativas (a indústria siderúrgica polui menos atualmente do que (o) fazia no passado; o Presidente da República promulgou mais leis este ano do que (o) fez o ano passado). É analisada a variação na forma da expressão anafórica, fazer vs. fazer+o (mas não e.g. fazer+isso, com pronome demonstrativo não clítico), que é específica destas duas construções de subordinação. São discutidos, de forma pormenorizada, os requisitos gramaticais que operam na formação de cadeias referenciais com o verbo fazer, nestas construções. Por um lado, observa-se que os mecanismos de formação de cadeias referenciais com o verbo anafórico fazer são frequentemente bastante complexos, envolvendo processos de “reconstrução do antecedente” a partir do material realizado linguisticamente nas estruturas matriz. Por outro lado, verifica-se que as cadeias anafóricas com fazer, que se associam tipicamente a um valor acional, expresso por um verbo acional na forma ativa no antecedente, surgem com alguma frequência associadas a valores e/ou formas distintos, porventura de aceitação não consensual entre falantes. Com efeito, as estruturas conformativas e as orações comparativas com o verbo anafórico fazer constituem uma área crítica da língua, sujeita a intensa variação, documentando-se com alguma frequência, no registo escrito, construções de em que os requisitos morfossintáticos e semânticos prototípicos não são observados (e.g. por uso de um verbo acional na forma passiva participial, ou por ausência de verbo acional no antecedente). São apresentados dados de corpora de texto jornalístico, predominantemente português, e bem assim de texto literário, para ilustrar e corroborar as análises.
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