Palavras diacríticas e semidiacríticas em locuções adverbiais e adjetivas do português

um estudo a partir de corpus

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-21

Palavras-chave:

Fraseologia, Palavras diacríticas, Léxico, Linguística de Corpus, Português contemporâneo

Resumo

Este artigo investiga as palavras diacríticas e semidiacríticas do português contemporâneo (brasileiro e europeu), com foco em sua ocorrência em locuções adverbiais e adjetivas (à beça, à tona, de araque, à toa, com afinco, de soslaio, de araque, à paisana, do balacobaco, etc.). Essas palavras, caracterizadas por forte restrição fraseológica e por uma assemanticidade relativa, foram pouco investigadas nos estudos fraseológicos portugueses, embora sejam amplamente estudadas em outras tradições românicas. Partindo do referencial teórico da Fraseologia espanhola, o objetivo do trabalho é identificar de forma sistemática as lexias que funcionam como núcleos de locuções a partir de uma abordagem empírica e baseada em corpus. Para isso, foi compilado o Corpus do Português Sincrônico (CorPS), com cerca de 475 milhões de palavras provenientes de textos literários, jornalísticos, técnico-científicos e cotidianos escritos no século XXI. Utilizou-se um Índice de Restrição Fraseológica (IRF), calculado automaticamente por meio de um script em Python e revisado por um crivo manual. O IRF determina a proporção de ocorrências de cada palavra antecedidas por preposição em relação ao total de ocorrências no corpus. Foram consideradas diacríticas as palavras com IRF de 100% e semidiacríticas aquelas com IRF igual ou superior a 80%, desde que registradas em dicionários gerais da língua e presentes em mais de uma formação discursiva. Foram identificadas 28 palavras diacríticas e 109 semidiacríticas, confirmando que a restrição fraseológica total é rara e que há um continuum de fossilização lexical no português contemporâneo. A pesquisa evidencia o potencial das ferramentas da Linguística de Corpus para delimitar empiricamente fenômenos tradicionalmente descritos de modo intuitivo, demonstrando que a integração entre critérios estatísticos e lexicográficos permite propor um modelo replicável para o estudo da fixação lexical. Conclui-se que as palavras diacríticas, embora representem um fenômeno marginal na fraseologia portuguesa, desempenham papel relevante na compreensão dos processos de cristalização e mudança do léxico.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Biografia do Autor

  • Luiz Leandro Gomes de Lima, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

    Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (2016).  Técnico em Assuntos Educacionais na UFMS.

  • Elizabete Aparecida Marques, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

    Doutora em Linguística Aplicada pela Universidad de Alcalá de Henares (Espanha, 2007). Professora Titular Emérita da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, onde atua como docente e pesquisadora no Curso de Letras e nos Programas de Mestrado em Estudos de Linguagens e Mestrado e Doutorado em Letras. 

Referências

ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA. Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa [online]. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, s.d. Disponível em: https://dicionario.acad-ciencias.pt/. Acesso em: 15 set. 2025.

AGUILAR RUIZ, M. J. Vilo, repente y santiamén: los «fósiles fraseológicos» como palabras diacríticas en la fraseología española. In: CARMONA YANES, E.; DEL REY QUESADA, S. (org.). Id est, loquendi peritia: aportaciones a la lingüística diacrónica de los jóvenes investigadores de la AJIHLE. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2011.

AGUILAR RUIZ, M. J. “Fósiles fraseológicos”: la configuración formal de “voces fósiles” como palabras idiomáticas en locuciones españolas. Estudios Humanísticos. Filología, v. 42, p. 163–183, 2020. DOI https://doi.org/10.18002/ehf.v0i42.6225

ARONOFF, M. Word Formation in Generative Grammar. Cambridge: MIT Press, 1976.

AULETE, C. Dicionário Caldas Aulete [online]. Rio de Janeiro: Aulete Digital, s.d. Disponível em: https://www.aulete.com.br/. Acesso em: 12 ago. 2025.

BAGNO, M. Língua, linguagem, linguística: colocando os pingos nos ii. São Paulo: Parábola Editorial, 2014.

BIDERMAN, M. T. C. Aurélio: sinônimo de dicionário? ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 44, 2001.

BORBA, F. S. Dicionário de usos do português do Brasil. São Paulo: Ática, 2002.

BORBA, F. S. Organização de Dicionários: uma introdução à Lexicografia. São Paulo: Ed. UNESP, 2003.

CAMÕES – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. Dados sobre a língua portuguesa: Dia Mundial da Língua Portuguesa, 5 de maio de 2023. Lisboa: Camões, I.P., 2023. Disponível em:

https://www.instituto-camoes.pt/images/img_agenda2023/Dados_sobre_a_l%C3%ADngua_portuguesa_2023.pdf). Acesso em: 8 set. 2025.

CANIATO, P. C.; SIMÃO, A. K. G. Don Quijote de la Mancha traduzido: unidades fraseológicas diacríticas e suas traduções ao português brasileiro. In: ZAVAGLIA, C.; STUPIELLO, E. N. A. (org.). Tendências contemporâneas dos Estudos da Tradução. São José Do Rio Preto: Universidade Estadual Paulista, 2015.

ČERMAK, F. et al. Language Periphery: Monocollocable words in English, Italian, German and Czech. Amsterdam: John Benjamins Publishing Company, 2016. DOI https://doi.org/10.1075/scl.74

ČERMAK, P.; OBSTOVÁ, Z. Palabras monocolocables en español y en italiano: ¿cómo identificar palabras con una colocabilidad muy restringida? ELUA: Estudios De Lingüística. Universidad De Alicante, v. 35, p. 53–72, 2021. DOI https://doi.org/10.14198/ELUA2021.35.3

CORPAS PASTOR, G. Manual de fraseología española. Madrid: Gredos, 1996.

COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. São Paulo: Autêntica Editora, 2008.

DOBROVORSKIJ, D.; PIIRAINEN, E. Sprachliche Unikalia im Deutschen: Zum Phänomen phraseologisch gebundener Formative. Folia Linguistica, [S. l.], v. 28, n. 3-4, p. 449-473, 1994. DOI https://doi.org/10.1515/flin.1994.28.3-4.449

ECHENIQUE ELIZONDO, M. T. Pautas para el estudio histórico de las unidades fraseológicas. In: GIRÓN ALCONCHEL, J. L.; IGLESIAS RECUERO, S.; HERRERO RUIZ DE LOZAIGA, F. J.; NARBONA JIMÉNEZ, A. (org.) Estudios ofrecidos al profesor José Jesús de Bustos Tovar. Madrid: Universidad Complutense, 2003.

ECHENIQUE ELIZONDO, M. T. Principios de fraseología histórica española. Madrid: Instituto Universitario “Seminario Menéndez Pidal”, 2021.

ECHENIQUE ELIZONDO, M. T. Unidades fraseológicas. In: DWORKIN, S. N.; CLAVERÍA NADAL, G.; TOLEDO Y HUERTA, A. S. O. Lingüística histórica del español / The Routledge Handbook of Spanish Historical Linguistics. Londres: Routledge, 2023. DOI https://doi.org/10.4324/9781003035565-26

EGBERT, J.; BIBER, D.; GRAY, B. Designing and evaluating language corpora: a practical framework for corpus representativeness. Cambridge: Cambridge University Press, 2022. DOI https://doi.org/10.1017/9781316584880

FERREIRA, A. B. H. (org.). Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa: versão eletrônica Século XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

FULGÊNCIO, L. Expressões fixas e idiomatismos do português brasileiro. 2008. Tese (doutorado em Letras) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2008.

GARCÍA-PAGE, M. Léxico y sintaxis locucionales: algunas consideraciones sobre palabras "idiomáticas". Estudios humanísticos. Filología, León (Espanha), n. 12, p. 279-292, 1990. DOI https://doi.org/10.18002/ehf.v0i12.4052

GARCÍA-PAGE, M. Locuciones adverbiales con palabras “idiomáticas”. RSEL, Revista de la Sociedad Española de Lingüística, Madrid, n. 21, v. 2, p. 233-264, 1991.

GARCÍA PAGE, M. Introducción a la fraseología española. Barcelona: Anthropos, 2008.

GONZÁLEZ REY, M. I. La noción de “hápax” en el sistema fraseológico francés y español. In: ALMELA PÉREZ, R.; RAMÓN TRIVES, E.; WOTJAK, G. Fraseología contrastiva. Murcia: Univesidad de Murcia, 2005.

HOLZINGER, H. J. Unikale Elemente. Apuntamentos sobre as palabras ligadas fraseoloxicamente do alemán actual. Cadernos de Fraseoloxía Galega, Santiago de Compostela, n. 14, p. 165-173, 2012.

HOLZINGER, H. J. Unikale Elemente oder phraseologisch gebundene Wörter? Antworten aus korpuslinguistischer Sicht. Revista de Filología Alemana, v. 26, p. 199-213, 2018. DOI https://doi.org/10.5209/RFAL.60149

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa [online]. Rio de Janeiro: Objetiva / Instituto Antônio Houaiss, s.d. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/. Acesso em: 10 jul. 2025.

LORENZO, J. M. R. Las palabras diacríticas y sus locuciones en la historia de la lengua española. 2021. Tese (Doutorado em Estudios Hispánicos Avanzados) - Facultat de Filologia, Traducció i Comunicació, Departamento de Filología Española, Universitat de València, 2021.

PORTO EDITORA. Dicionário da Língua Portuguesa. Porto: Porto Editora, 2015.

RUIZ GURILLO, L. La fraseología del español coloquial. Barcelona: Editorial Ariel, 1998.

SIMÃO, A. K. G. Lematização de unidades fraseológicas diacríticas em dicionários bilíngues espanhol/português. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 8, n. 2, p. 269-288, jul/dez, 2014. DOI https://doi.org/10.14393/DL16-v8n2a2014-15

TEYSSIER, P. História da língua portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

ZULUAGA, A. Introducción al estudio de las expresiones fijas. Frankfurt: Peter D. Lang, 1980.

ZULUAGA, A. Phraseologie / Fraseología. In: HOLTUS, G.; METZELTIN, M.; SCHIMDT, C. (org.) Lexikon der Romanistischen Linguistik (LRL). Band/Volume VI,1. Tübingen: Max Niemeyer, 1992.

Downloads

Publicado

14.05.2026

Como Citar

GOMES DE LIMA, Luiz Leandro; MARQUES, Elizabete Aparecida. Palavras diacríticas e semidiacríticas em locuções adverbiais e adjetivas do português: um estudo a partir de corpus. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 20, p. e020021, 2026. DOI: 10.14393/DLv20a2026-21. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/80492. Acesso em: 15 maio. 2026.