Um sobrevoo pelas formações sobre-x no português do Brasil
aspectos formais e semântico-pragmáticos
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-6Palavras-chave:
Prefixação, Morfologia Construcional, Semântica Cognitiva, Metáfora conceptual, Português do BrasilResumo
Este artigo investiga formações lexicais prefixadas por sobre- no português do Brasil, com o objetivo de descrever de que modo a relação entre forma e significado se articula a efeitos semântico-pragmáticos recorrentes no uso contemporâneo da língua. Parte-se da hipótese de que a semântica específica a esse prefixo não é aleatória, mas sistematicamente organizada por esquemas construcionais e por operações cognitivas ancoradas na experiência discursiva. O estudo adota como arcabouço teórico a Morfologia Construcional, conforme proposta por Booij (2010), articulada a pressupostos da Semântica Cognitiva, em especial à Teoria da Metáfora Conceitual, de Lakoff e Johnson (1987), e aos refinamentos de Grady (1997) acerca das metáforas primárias. Metodologicamente, a análise baseia-se em dados empíricos extraídos do corpus News on the Web (NOW), composto por textos jornalísticos contemporâneos e desenvolvido por Davies (2016). Foram consideradas apenas formações morfologicamente transparentes, de modo a permitir a observação direta da contribuição semântica do prefixo no plano atual da língua. O corpus final reúne ocorrências em que sobre- se adjunge a bases nominais, adjetivais e verbais, sendo as formações nominais as mais produtivas. Os resultados indicam que o prefixo sobre- apresenta forte tendência à expressão de excesso, entendida como ultrapassagem de limites funcionais, normativos ou socialmente esperados. Esse valor semântico manifesta-se predominantemente por meio da ativação da metáfora orientacional “QUANTIDADE É VERTICAL”, reinterpretada no domínio avaliativo como “PARA CIMA É EXCESSO”. Argumenta-se que, diferentemente de sua contraparte erudita super-, o prefixo sobre- bloqueia a leitura positiva associada à metáfora “PARA CIMA É BOM”, favorecendo avaliações negativas ou problematizadoras, como se observa em itens como sobre-endividamento, sobrejornada, sobrequalificação e sobre-exploração. Além disso, identifica-se a então descripta semântica específica é originada de uma acepção mais ampla, associada ao sentido de “passar por cima”, exemplificada sobretudo pelo verbo sobrevoar, cuja seleção discursiva tende a envolver referentes espacial ou simbolicamente negativizados. Conclui-se que o comportamento semântico de sobre- é orientado por esquemas interpretativos recorrentes, sensíveis ao uso e ao contexto, o que contribui para uma compreensão mais integrada da prefixação no português, articulando morfologia, cognição e discurso.
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