A derivação sufixal na terminologia do século XVIII: um estudo dos sufixos -os(o) e -ad(o) na obra de Vandelli
DOI:
https://doi.org/10.14393/Lex-v11a2026-1Palabras clave:
Derivação sufixal, Neologismos terminológicos, Formação de termos, Etimologia, TerminologiaResumen
Este artigo investiga a formação de termos por derivação sufixal na terminologia científica portuguesa do século XVIII, tomando como objeto de análise os adjetivos formados com os sufixos -ad(o) e -os(o) presentes no Diccionario dos Termos Technicos de Historia Natural (1788), de Domingos Vandelli. O objetivo central é compreender os mecanismos de enriquecimento lexical empregados na constituição da linguagem científica em língua portuguesa em um momento decisivo de sua consolidação, marcado pela transposição do saber científico do latim para as línguas vernáculas. A pesquisa adota uma abordagem morfológica e etimológica, articulando descrição estrutural e análise histórica dos termos, e fundamenta-se no conceito de neologismo proposto por Alves (2007), considerando como neológicos os itens que não apresentam registro anterior a 1788 no Dicionário Houaiss Online. O córpus analisado revelou a ocorrência de 14 termos em -ad(o) e 13 em -os(o) que podem ser classificados como neologismos históricos. A maioria desses termos apresenta correspondentes diretos em latim, frequentemente registrados na própria obra de Vandelli (por exemplo, ciliatus, bulbosus, tuberculatus ), o que evidencia a forte influência do modelo latino na constituição da terminologia científica portuguesa. A análise mostra que tais unidades não podem ser explicadas apenas como criações endógenas do português, mas devem ser compreendidas como latinismos adaptados, isto é, formas cujo étimo é latino, mas cuja estrutura morfológica se conforma aos padrões derivacionais da língua portuguesa. No caso do sufixo -ad(o), o estudo demonstra que ele não se limita à função de desinência de particípio verbal, mas atua amplamente como sufixo denominal formador de adjetivos, inclusive em contextos nos quais não há verbo correspondente atestado em português. Já o sufixo -os(o) apresenta comportamento mais estável, formando adjetivos a partir de substantivos e, em diversos casos, recuperando bases eruditas de origem latina. Em ambos os conjuntos, observa-se a necessidade de distinguir claramente a estrutura morfológica dos termos — analisável como derivação sufixal — de sua descrição etimológica, que aponta para processos de decalque a partir do latim. Conclui-se que a obra de Vandelli desempenhou papel decisivo na difusão e sistematização da terminologia científica em português, contribuindo para a afirmação do idioma como língua de ciência. Além disso, a análise diacrônica dos sufixos -ad(o) e -os(o) evidencia como práticas lexicais do século XVIII ajudaram a moldar padrões derivacionais ainda produtivos no português contemporâneo, ampliando o entendimento da história do léxico técnico-científico e da morfologia derivacional da língua.
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Referencias
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