Política linguística, tecnologização e ideologias sobre a língua inglesa na educação pública brasileira
uma análise crítica de três programas no Paraná
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv19a2025-80Palavras-chave:
Políticas linguísticas, Ideologias linguísticas, Tecnologia, Língua inglesa, Análise Crítica do DiscursoResumo
O inglês é a única língua estrangeira moderna incluída nos currículos nacionais e estaduais da educação básica (BNCC/CREP) e é considerado uma ferramenta essencial para a internacionalização do sistema público de educação do Paraná. Além disso, essas políticas educacionais enfatizam o uso de tecnologias digitais em contextos de aprendizagem de línguas. Nesse sentido, o presente estudo se justifica por nosso engajamento profissional como formadores de professores de língua inglesa. O objetivo deste artigo é investigar as construções discursivas do inglês e das tecnologias digitais em três políticas linguísticas implementadas no sistema público de educação do Paraná. Mais especificamente, este estudo de pequena escala busca identificar como as propostas presentes nessas políticas linguísticas são operacionalizadas pela gestão da linguagem nos níveis da educação básica e do ensino superior. Adotando uma abordagem qualitativa fundamentada na Análise Crítica do Discurso (ACD), o estudo examina como ideologias em torno da língua inglesa e discursos de tecnologização são construídos em três programas de educação linguística, com atenção especial às ideologias que sustentam essas políticas e ao papel atribuído à tecnologia em sua implementação. Por meio de revisão de literatura e análise documental, o estudo focaliza três políticas linguísticas estaduais: Paraná Fala Inglês, Ganhando o Mundo e Inglês Paraná. Esses programas são analisados à luz de referenciais teóricos sobre política linguística, ideologias linguísticas e discursos sobre tecnologia. Os resultados sugerem que essas políticas reforçam discursos de falante nativo e enfatizam a tecnologia como meio de enfrentar supostas deficiências no ensino de línguas. No caso do Paraná Fala Inglês, o inglês é discursivamente enquadrado como um recurso estratégico para o avanço institucional e a competitividade acadêmica. O Ganhando o Mundo opera a partir de uma lógica meritocrática que reduz o valor dos estudantes a resultados quantificáveis — como pontuações em testes padronizados — para justificar investimentos elevados em um grupo restrito de participantes. Por fim, o Inglês Paraná baseia-se fortemente em instrução mediada por plataformas digitais, frequentemente marginalizando professores locais em favor de “soluções” digitais prontas. De modo geral, esses programas operam sob uma lógica de modernização que entrelaça o prestígio do inglês à transformação digital, muitas vezes em detrimento da participação democrática, da pedagogia crítica e da equidade educacional. Embora apresentados como inclusivos e transformadores, tais políticas correm o risco de reforçar desigualdades sociais, restringir concepções de língua inglesa e deslocar práticas pedagógicas localmente situadas.
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