Racismo religioso e colonialidade nas redes sociais
uma análise crítica do discurso de influenciadora durante as enchentes no Rio Grande do Sul
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-20Palabras clave:
Colonialidade, Racismo Religioso, Intolerância Religiosa, Análise Crítica do DiscursoResumen
A propagação de discursos de intolerância religiosa nas redes sociais tem se intensificado, tendo as práticas de matriz afro-brasileira como principais alvos de discriminação e violência, perpetuadas por relações de poder hegemônico intrinsecamente vinculadas ao racismo estrutural e à colonialidade (Almeida, 2019; Nogueira, 2020). Este artigo analisa o discurso de uma influenciadora digital que associou as enchentes ocorridas no estado do Rio Grande do Sul, em abril de 2024, à presença de terreiros de religiões afro-brasileiras na região. A análise fundamenta-se no modelo tridimensional de Análise Crítica do Discurso (ACD) de Fairclough (1995; 2001; 2015), o qual possibilita examinar, por meio das categorias texto, prática discursiva e prática social, como o discurso foi produzido, circulado e consumido nas redes sociais, bem como seus efeitos sociais em um contexto mais amplo. A dimensão textual evidencia o uso de vocabulário carregado de conotações religiosas e pejorativas, com repetições e perguntas retóricas que reforçam a autoridade moral e a narrativa de punição divina. A prática discursiva mostra que o discurso foi estrategicamente produzido e disseminado no Instagram, alcançando um público amplo e consolidando a influenciadora como figura de autoridade religiosa, cuja fala legitima preconceitos e reforça estigmas contra as religiões afro-brasileiras. Por sua vez, a análise da prática social revela a articulação desse discurso com estruturas hegemônicas de dominação religiosa e colonialidade, naturalizando a marginalização e a demonização dessas práticas e de seus seguidores. Os resultados indicam que a linguagem funciona como instrumento de poder, capaz de perpetuar o racismo religioso, reforçar ideologias excludentes e gerar violência simbólica e física contra grupos minoritários. Ao mesmo tempo, aponta-se que a linguagem pode atuar como ferramenta de resistência e transformação, possibilitando a contracolonização e a (re)existência das práticas religiosas afro-brasileiras. Dessa forma, este estudo contribui para a compreensão das interseções entre discurso, poder e colonialidade nas redes sociais, ressaltando a importância de enfrentar e desconstruir narrativas que legitimam o racismo religioso e a marginalização cultural.
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