Entre silêncios e resistências

cultura, identidade e língua na educação de surdos indígenas no Brasil – uma análise à luz da Teoria Multissistêmica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-39

Palavras-chave:

Teoria Multissistêmica, Línguas Indígenas de Sinais, Educação decolonial, Surdos indígenas, Plurilinguismo

Resumo

Este artigo analisa a relevância dos aspectos culturais, identitários e linguísticos na educação de surdos indígenas no Brasil, articulando as perspectivas da História Cultural dos Surdos, dos Estudos Decoloniais e da Teoria Multissistêmica de Ataliba Teixeira de Castilho. Fundamentado em revisão narrativa da literatura, o estudo mobiliza fontes teóricas dos campos da linguística, educação de surdos, estudos indígenas e estudos decoloniais, com o objetivo de demonstrar que o surdo indígena é sujeito de uma dupla colonização: aquela imposta historicamente aos povos originários, que visou ao apagamento de suas culturas e línguas, e aquela denominada colonização dos surdos, que negou a legitimidade das línguas de sinais como sistemas linguísticos plenos. A partir da teoria multissistêmica, compreende-se que toda língua natural – incluindo as Línguas Indígenas de Sinais (LIS) – constitui um sistema complexo cujos subsistemas (léxico, gramática, discurso e cognição) se articulam de forma interdependente por meio de quatro processos fundamentais: lexicalização, semanticização, discursivização e gramaticalização. O artigo demonstra, com exemplos concretos da Língua de Sinais Ka’apor Brasileira (LSKB), como esses processos operam nas LIS, evidenciando seu estatuto de línguas naturais plenas. Argumenta-se que negar esse estatuto às LIS constitui ato de violência epistêmica e linguística que a escola reproduz, quando ignora a língua com que a criança surda indígena chegou ao mundo. O estudo percorre três eixos temáticos: a análise histórica da dupla colonização; a interseccionalidade identitária do surdo indígena, com ênfase nas LIS como instrumentos de resistência cultural; e a proposta de um modelo pedagógico decolonial e plurilíngue, ancorado no pensamento de Paulo Freire e nas convergências entre as pedagogias surda e indígena. Conclui-se que a construção de uma educação verdadeiramente emancipatória para surdos indígenas exige o reconhecimento da pluralidade linguística como valor, a valorização das LIS como primeiras línguas desses sujeitos e a adoção de práticas pedagógicas que façam da experiência cultural e visual o centro do processo educativo, em um movimento de descolonização que é, ao mesmo tempo, político, pedagógico e profundamente humano.

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Biografia do Autor

  • Viviane da Silva Pinheiro, Universidade Federal Fluminense

    Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ciências, Tecnologias e Inclusão (UFF). Docente do Departamento de Didática na Universidade do Rio de Janeiro (UNIRIO).

  • Osilene Maria de Sá e Silva da Cruz, Instituto Nacional de Educação de Surdos

    Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem – PUC-SP.  Professora Adjunta de Língua Portuguesa como L1 e L2 no Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES - para os cursos de graduação e pós-graduação. Professora permanente do curso de Mestrado Profissional em Diversidade e Inclusão - UFF/CMPDI e professora visitante do Programa de Programa de Pós-Graduação em Ciências, Tecnologias e Inclusão - UFF/PPGCTIN. 

  • Viviane de Oliveira Freitas Lione, Universidade Federal do Rio de Janeiro

    Doutora em Biologia (UERJ). Professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Publicado

30.09.2026

Edição

Seção

Homenagem a Ataliba T. de Castilho

Como Citar

PINHEIRO, Viviane da Silva; CRUZ, Osilene Maria de Sá e Silva da; LIONE, Viviane de Oliveira Freitas. Entre silêncios e resistências: cultura, identidade e língua na educação de surdos indígenas no Brasil – uma análise à luz da Teoria Multissistêmica. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 20, p. e020039, 2026. DOI: 10.14393/DLv20a2026-39. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/83188. Acesso em: 4 out. 2026.