Discursos racializados
a relação paródica entre a Julieta negra e o Predador em comentários online
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-2Palavras-chave:
Análise de Discurso, Adaptação, Julieta negra, Comentários online, RacialidadeResumo
Alinhado à teoria materialista do discurso, este trabalho tem como objetivos i) produzir uma leitura discursiva da noção de adaptação; ii) compreender como o sentido de adaptação fiel baliza a produção de sentidos sobre mulheres negras. Para alcançá-los, analisamos comentários públicos nas redes sociais Instagram e X (antigo Twitter) sobre a adaptação teatral Romeu e Julieta, dirigida por Jamie Lloyd, estreada em 2024 e protagonizada por Tom Holland, homem branco, como Romeu, e Francesca Amewudah-Rivers, mulher negra, como Julieta. Consideramos os postulados da Tradução Intersemiótica (Jakobson, 2007 [1969]; McFarlane, 1996) e da Teoria da Adaptação (Stam, 2006; Hutcheon, 2013) para compreender como a adaptação é lida por estes campos para, enfim, propor uma leitura discursiva desta noção compreendendo-a como deslocamento entre materialidades significantes cujo funcionamento ocorre pela incompletude que lhe é constitutiva (Orlandi, 2007; Pêcheux, 1977 [1975]; Indursky, 2009; Lagazzi, 2010). Ao discutir que o real é da ordem do impossível, pois não há objetos independentes do discurso (Pêcheux, 2008 [1973]), refletimos sobre como a obra primeira produz um efeito origem que retorna sobre as obras adaptadas significando-as como não legítimas/não reais. Nos interessamos, então, pelo modo como a racialidade atravessa a discursividade (Modesto, 2021) sobre adaptações cujo protagonismo se materializa pela atuação da mulher negra. Como resultado, as análises dos comentários dão a ver como regularidade a paródia entre a Julieta e o personagem Predador, pois postulam que a adaptação não captura o real da obra primeira por não ser a atriz “a Julieta de Shakespeare”. Na relação paródica que se estabelece entre tais personagens, o discurso é possível de ser racializado, porque os sentidos são produzidos a partir de uma memória eugenista que reforça a estereotipia das mulheres negras como “vilãs”, “más”, “não-femininas”. Concluímos, portanto, que esta discursividade inscreve o sujeito negro no âmbito da anormalidade, circunscrevendo-o como inferior ao sujeito branco (Carneiro, 2023).
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