“[...] mata um monte de criança pobre e preta” em um comentário do 55chan do EndChan sob a abordagem da Metalinguística e da Criminologia Cultural
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-14Palabras clave:
Metalinguística, Criminologia Cultural, 55chan, EndChan, Massacre escolarResumen
O 55chan é um subfórum brasileiro hospedado no fórum EndChan que tem operado à margem da regulação estatal e em desacordo com marcos constitucionais que sustentam a ordem democrática, como a cidadania (art. 1º, inc. II, CF/88), a dignidade da pessoa humana (art. 1º, inc. III, CF/88) e o pluralismo político (art. 1º, inc. V, CF/88). Nesse campo digital, constitui-se uma subcultura criminal, na qual os enunciados performam avaliações sociais violentas por meio de um estilo de linguagem racialmente genocida e abertamente antidemocrático. Esses enunciados operam sob o signo da inferiorização do outro, de maneira a produzir uma contraconstituição que reivindica para si uma liberdade de expressão avessa a qualquer responsabilidade ética ou jurídica, o que instaura uma normatividade paralela à do Estado Democrático de Direito. Nesse contexto, o objetivo é analisar um enunciado publicado no subfórum 55chan como expressão de linguagem de sua subcultura criminal, com a intenção de identificar, pela Metalinguística e Criminologia Cultural, o estilo discursivo nele mobilizado. A pesquisa é justificada em dois campos: i) jurídico pela necessidade de se analisar discursos que incitam, publicamente, a realização de crimes (art. 286, CP); ii) acadêmico pela necessidade de contribuir à literatura acerca do 55chan como subfórum de circulação de discursos racistas e antidemocráticos. O aporte teórico é interdisciplinar e é respaldado pela Metalinguística de Bakhtin (2015, 2016, 2018, 2022), Medviédev (2016) e Volóchinov (2018, 2019) em diálogo com a Criminologia Cultural de Ferrell, Hayward e Young (2019), Khaled Jr., e Dimou (2022), Khaled Jr., Linck e Carvalho (2022), Rocha (2013) e Rocha e Silva (2014). A metodologia é planejada pela seleção de um comentário publicado em 2024 no subfórum indicado com os seguintes critérios: i) atualidade histórica; ii) incitação pública à realização de ato criminoso; iii) potencial analítico-interpretativo. Os resultados permitem entender que, ao constituir seu estilo discursivo, o locutor mobiliza afetos – ódio, repulsa, desejo de destruição –, sentidos compartilhados – professores e crianças como ameaças – e performance subcultural – o incitamento à aniquilação física e simbólica do outro –, a fim de legitimar e normatizar um massacre escolar.
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Referencias
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