Do dicionário à inteligência artificial

mediação léxico-gramatical e autoria discente no projeto “soletrando na periferia”

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-40

Palabras clave:

Mediação léxico-gramatical, Dicionários digitais, Inteligência artificial generativa, Contratos comunicativos, Ensino de língua inglesa

Resumen

As práticas de produção e circulação da linguagem no espaço escolar têm sido profundamente reconfiguradas pela emergência de sistemas de Inteligência Artificial (IA) generativa. Historicamente, o ensino de línguas foi mediado por dispositivos de estabilização normativa, como os dicionários. A coexistência desses instrumentos com modelos probabilísticos de linguagem, especialmente em escolas públicas de territórios periféricos marcados por desigualdades tecnológicas, introduz uma tensão epistemológica que altera os contratos comunicativos e a legitimidade das fontes de conhecimento utilizadas na construção de sentidos. Este artigo tem como objetivo analisar de que modo a articulação pedagógica entre o uso de dicionários digitais (Cambridge Dictionary) e sistemas de IA generativa (Gemini) atua como estratégia de mediação léxico-gramatical no ensino de língua inglesa, visando compreender como essa integração reconfigura o desenho didático e fomenta o desenvolvimento das habilidades comunicativas. Situada no campo da Linguística Aplicada crítica e orientada por uma perspectiva qualitativa interpretativista, a pesquisa examina uma intervenção longitudinal desenvolvida entre 2021 e 2025 em uma escola pública municipal de Fortim, Ceará. O corpus é constituído por registros de observação, matrizes lexicográficas, materiais didáticos e interações documentadas no projeto Soletrando na Periferia. O percurso analítico acompanhou sequências pedagógicas progressivas: inicialmente, a macro e a microestrutura dos verbetes serviram como andaime estrutural; posteriormente, introduziu-se a formulação ativa de comandos (prompts) na IA, demandando a inserção dos itens lexicais em contextos extradicográficos. As atividades culminaram em eventos públicos de soletração contextualizada. A análise indica que a transição orientada entre os dispositivos favorece a emergência de novos contratos comunicativos. Enquanto o dicionário garantiu a estabilização conceitual, a IA propiciou a fluidez interacional. Constatou-se que o confronto sistemático entre as respostas geradas pelo sistema — incluindo eventuais imprecisões — e o rigor do dicionário exigiu dos estudantes o exercício de uma curadoria lexicográfica autônoma, deslocando-os de uma posição passiva para validadores críticos da linguagem, fomentando a autoria discursiva. Conclui-se que a articulação intencional entre o letramento lexicográfico e a experimentação digital ampara o engajamento e a expansão do repertório lexical. O arranjo didático instrumentaliza os estudantes para interagir de forma ética e reflexiva com tecnologias emergentes, consolidando a escola como espaço de emancipação.

Descargas

Los datos de descarga aún no están disponibles.

Biografía del autor/a

  • Francisco André da Silva, Universidade Estadual do Ceará

    Doutorando  em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará (POSLA/UECE). Professor de Língua Inglesa na educação básica da rede municipal de Fortim (CE).

Referencias

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 6. Ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

BORTONI-RICARDO, S. M. O professor pesquisador: introdução à pesquisa qualitativa. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 21 jan. 2026.

BROWN, H. D. Teaching by Principles: An Interactive Approach to Language Pedagogy. 2. Ed. White Plains, NY: Addison Wesley Longman, 2001.

CAMBRIDGE DICTIONARY. Cambridge: Cambridge University Press, 2024. Disponível em: https://dictionary.cambridge.org. Acesso em: 12 fev. 2025.

CELANI, M. A. A. Um desafio na Linguística Aplicada contemporânea: a construção de saberes locais. DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 32, n. 2, p. 543-555, 2016. DOI https://doi.org/10.1590/0102-445081919576720433

CHARAUDEAU, P. El contrato de comunicación en una perspectiva lingüística: normas psicosociales y normas discursivas. Opción, Maracaibo, v. 22, n. 49, p. 38–54, abr. 2006. Disponível em: http://ve.scielo.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1012-15872006000100004&lng=es&nrm=iso. Acesso em: 10 mar. 2026.

DECI, E. L. Intrinsic motivation. New York: Plenum Press, 1975. DOI https://doi.org/10.1007/978-1-4613-4446-9

DÖRNYEI, Z. Research methods in applied linguistics: quantitative, qualitative, and mixed methodologies. Oxford: Oxford University Press, 2007.

FRANCELINO, P. F. Enunciação, dialogismo e autoria em enunciados midiáticos verbo-visuais. Moara, Belém, n. 36, p. 104-114, jul./dez. 2011. DOI https://doi.org/10.18542/moara.v1i36.1105

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GOOGLE. Gemini: Artificial Intelligence system. Mountain View: Google, 2024. Disponível em: https://gemini.google.com. Acesso em: 12 fev, 2025.

HALLIDAY, M. A. K. Na Introduction to Functional Grammar. London: Edward Arnold, 1985.

HALLIDAY, M. A. K.; MATTHIESSEN, C. M. I. M. Halliday’s introduction to functional grammar. 4. Ed. London: Routledge, 2014. DOI https://doi.org/10.4324/9780203783771

KERN, R. Perspectives on technology in learning and teaching languages. TESOL Quarterly, v. 40, n. 1, p. 183-210, 2006. DOI https://doi.org/10.2307/40264516

KRIEGER, M. da G. Políticas públicas e dicionários para escola. Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 2, n. 18, p. 235-252, 2006.

LARSEN-FREEMAN, D.; ANDERSON, M. Techniques and principles in language teaching. 3. Ed. Oxford: Oxford University Press, 2011.

MARCUSCHI, L. A. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

MOITA LOPES, L. P. da (org.). Por uma Linguística Aplicada indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C. de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. Ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013. Disponível em: https://www.feevale.br/Comum/midias/0163c988-1f5d-496f-b118-a6e009a7a2f9/E-book%20Metodologia%20do%20Trabalho%20Cientifico%20.pdf. Acesso em: 20 jan. 2026.

REY-DEBOVE, J. Étude linguistique et sémiotique des dictionnaires français contemporains. The Hague: Mouton, 1971. DOI https://doi.org/10.1515/9783111323459

ROJO, R. Pedagogia dos multiletramentos. In: ROJO, R.; MOURA, E. (org.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. p. 11-31.

SANTAELLA, L. Por que é imprescindível um manual ético para a IA generativa? TECCOGS – Revista Digital de Tecnologias Cognitivas, São Paulo, n. 28, p. 7-24, 2023. DOI https://doi.org/10.23925/1984-3585.2023i28p7-24

SILVA, E. L. da; MENEZES, E. M. Metodologia da pesquisa e elaboração de dissertação. 4. Ed. Florianópolis: UFSC, 2005. Disponível em: https://tccbiblio.paginas.ufsc.br/files/2010/09/024_Metodologia_de_pesquisa_e_elaboracao_de_teses_e_dissertacoes1.pdf. Acesso em: 30 jan. 2026.

VYGOTSKY, L. S. Mind in society: the development of higher psychological processes. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1978.

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2017.

WELKER, H. A. Dicionários: uma pequena introdução à lexicografia. 2. ed. Brasília: Thesaurus, 2004.

WOOD, D.; BRUNER, J. S.; ROSS, G. The role of tutoring in problem solving. Journal of Child Psychology and Psychiatry, v. 17, n. 2, p. 89–100, 1976. DOI https://doi.org/10.1111/j.1469-7610.1976.tb00381.x

Publicado

2026-10-08

Número

Sección

Lexicografia e Inteligência Artificial

Cómo citar

SILVA, Francisco André da. Do dicionário à inteligência artificial: mediação léxico-gramatical e autoria discente no projeto “soletrando na periferia”. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 20, p. e020040, 2026. DOI: 10.14393/DLv20a2026-40. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/81780. Acesso em: 9 oct. 2026.