A expressão de TEMPO PRESENTE em português brasileiro

mudança diacrônica em quatro séculos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-44

Palavras-chave:

Tempo presente, Aspecto, Analiticização, Movimento do verbo, Português brasileiro

Resumo

Em sua Introdução ao estudo do aspecto verbal na língua portuguesa, Ataliba T. de Castilho (1968) sustenta que o presente é menos um tempo do que um tempo de tendência aspectual. No português brasileiro (PB) contemporâneo, de fato, a forma sintética de presente não veicula concomitância com o momento da fala, função assumida pela perífrase “estar” + gerúndio. Nosso objetivo é investigar, à luz da Gramática Gerativa, o percurso diacrônico dessa tendência aspectual, determinando como se expressou, ao longo de quatro séculos, o Tempo presente per se e em que momento o PB passou a preferir a forma analítica. Analisamos comédias teatrais brasileiras dos séculos XVIII a XXI, extraídas do Corpus Histórico Anotado do Português Tycho Brahe, nas quais levantamos as ocorrências de presente sintético e analítico e classificamos suas leituras como aspectual, temporal ou modal; os dados foram então submetidos a testes inferenciais (regressão logística, tendência de Cochran–Armitage e qui-quadrado). Até o fim do século XIX, o presente sintético veiculava, além de valores aspectuais, o próprio Tempo presente per se; foi apenas no primeiro quartel do século XX, com ponto de cruzamento estimado em 1910, que a forma analítica se impôs como estratégia majoritária. A vocação aspectual do sintético mostrou-se constante em toda a diacronia, ao passo que sua leitura temporal recuou de maneira significativa; a perífrase, por sua vez, manteve estável a convivência das leituras temporal e aspectual e jamais veiculou valor modal. Os verbos performativos, por fim, permanecem como resíduo do sistema anterior. Propomos que o verbo lexical no presente sintético checava traços de Tempo e de Aspecto nos séculos XVIII e XIX, mas deixou de checar traços temporais nos séculos XX e XXI, ficando restrito ao Aspecto. A projeção de Tempo tornou-se inerte para os verbos lexicais e ativa apenas com auxiliares, mudança paramétrica de meso- a microparâmetro que se manifesta, na Língua-E, como o avançado estado de analiticização do PB, possivelmente desencadeada pela economia de traços na aquisição e pelo contato linguístico, e que confere respaldo formal à antiga intuição de Castilho.

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Biografia do Autor

  • Paulo Ângelo Araújo-Adriano, Universidade de São Paulo

    Doutorado em Linguística (UNICAMP). Professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP).

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Publicado

15.10.2026

Edição

Seção

Homenagem a Ataliba T. de Castilho

Como Citar

ARAÚJO-ADRIANO, Paulo Ângelo. A expressão de TEMPO PRESENTE em português brasileiro: mudança diacrônica em quatro séculos. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 20, p. e020044, 2026. DOI: 10.14393/DLv20a2026-44. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/83450. Acesso em: 18 out. 2026.