Libras e inteligência artificial
desafios lexicográficos
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-36Palavras-chave:
Libras, Lexicografia, Inteligência Artificial, Glosa, Comunidade surdaResumo
Este artigo discute os desafios teórico-metodológicos do tratamento lexicográfico da Língua Brasileira de Sinais (Libras) na era da inteligência artificial, com atenção aos riscos e às possibilidades abertas por tecnologias de reconhecimento, tradução, anotação e organização automatizada de dados multimodais. Parte-se da compreensão da Libras como língua visual-espacial, dotada de organização gramatical própria, variação linguística e modos específicos de constituição lexical e terminológica. Nesse sentido, problematiza-se a tendência de reduzir sinais a equivalentes em português ou a glosas, sobretudo em contextos digitais e computacionais nos quais a língua sinalizada passa a ser convertida em dado processável. Metodologicamente, o estudo caracteriza-se como uma reflexão teórico-crítica, fundamentada em pesquisas sobre lexicografia e terminologia da Libras, dicionários e glossários digitais, produção de sinais-termos, processamento computacional de línguas de sinais, datasets, anotação, vieses algorítmicos e participação surda em projetos de inteligência artificial. A discussão evidencia que dicionários, glossários e plataformas digitais em Libras desempenham papel relevante na documentação do léxico comum e especializado, mas ainda enfrentam problemas como dispersão dos registros, heterogeneidade de formatos, fragilidade de acesso, insuficiência de metadados, lacunas de validação e dependência da língua portuguesa como eixo principal de busca. Argumenta-se que a inteligência artificial pode contribuir para a organização, indexação, recuperação e comparação de sinais, desde que não substitua a análise linguística, a curadoria humana e a validação comunitária. O artigo destaca, ainda, que datasets pouco representativos, modelos centrados na glosa e métricas descontextualizadas podem reforçar apagamentos, padronizações indevidas e desigualdades epistêmicas. Como encaminhamento, propõe-se uma lexicografia da Libras multimodal, ética e participativa, orientada pela descrição linguística da língua sinalizada, pelo registro da variação, pela governança ética dos dados e pela centralidade da comunidade surda na produção, validação e circulação dos recursos lexicográficos. Conclui-se que o uso da inteligência artificial nesse campo deve ser compreendido como apoio sociotécnico situado, e não como solução autônoma para os desafios lexicográficos da Libras.
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