Entre linhas e nós
transições do discurso narrativo do impresso ao hipertexto
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-13Palavras-chave:
Narrativa, Discurso, Hipertexto, Multivocalidade, Não-linearidadeResumo
O artigo trata das transformações do discurso narrativo no percurso do impresso ao ambiente digital, com ênfase na constituição da narrativa hipertextual. Parte-se da compreensão de que a tradição narrativa ocidental, fortemente ancorada na matriz aristotélica, estruturada em princípio, meio e fim, consolidou modelos lineares de organização do tempo, do espaço e da ação, influenciando a literatura, o jornalismo e outras formas midiáticas. À luz das reflexões de autores como Aristóteles, Walter Benjamin, Umberto Eco e Lev Manovich, o estudo discorre como esses fundamentos estruturais são tensionados pelas tecnologias digitais e pela lógica do hipertexto. A pesquisa, de natureza bibliográfica e caráter descritivo, sistematiza inicialmente os elementos da narrativa clássica, linearidade temporal, autoridade do narrador, distinção entre narrativa e informação, para, em seguida, abordar as reconfigurações promovidas pela hipertextualidade e pela hipermídia. Fundamentando-se em teóricos como Liestøl, Lévy, Landow, Santaella, Fiorin e Maingueneau, o trabalho demonstra que a narrativa digital rompe com a sequencialidade rígida e passa a operar por meio de blocos interconectados (“nós”), articulados por links que instauram percursos múltiplos de leitura. O estudo evidencia que categorias enunciativas como embreagem e debreagem assumem centralidade na organização do discurso hipertextual, ao lado da multivocalidade e da navegação não linear. O leitor deixa de ocupar posição passiva e torna-se agente da progressão narrativa, definindo trajetórias possíveis dentro de uma estrutura reticular. Nesse contexto, a narrativa aproxima-se da lógica da base de dados, na qual múltiplas sequências coexistem como potencialidades, sendo a linearidade apenas uma entre várias escolhas possíveis. Verificou-se, ainda, que a narrativa hipertextual não elimina os fundamentos da tradição, mas os reconfigura em um ambiente descentralizado, multimodal e interativo. A produção e a recepção do discurso passam a demandar novas competências cognitivas e novos regimes de leitura, marcados pela fragmentação, pela simultaneidade e pela articulação entre diferentes linguagens. A narrativa contemporânea, portanto, desloca-se da estabilidade da linha para a complexidade da rede, instaurando um paradigma discursivo mais fluido, colaborativo e multivocal.
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