Vozes polêmicas no documentário
um estudo polifônico da enunciação em perspectiva da Semântica do Acontecimento
DOI:
https://doi.org/10.14393/DLv20a2026-5Palavras-chave:
Semântica do Acontecimento, Polifonia da enunciação, Documentário político, Democracia, ImpeachmentResumo
Este artigo analisa as marcas do agenciamento enunciativo presentes no documentário político Democracia em Vertigem (2019), produzido, dirigido e narrado pela cineasta Petra Costa. A obra retrata uma série de acontecimentos sociopolíticos, compreendidos entre as manifestações de 2013 e a corrida eleitoral de 2018, tendo como cerne da narrativa a instabilidade institucional e o processo de impeachment de Dilma Rousseff como acontecimento central dessa conjuntura. A discussão é elaborada em perspectiva da Teoria da Semântica do Acontecimento, com procedimentos de análise propostos por Guimarães (2017). Além disso, apresenta-se os conceitos bakhtinianos de polifonia e dialogismo, considerando o embate de vozes articuladas em um contexto político de ruptura democrática. O corpus de análise constitui-se de quatro excertos selecionados a partir de cenas sequenciais que focalizam a tensão discursiva em torno do processo de impeachment, contemplando os enunciados proferidos pelos seguintes sujeitos: Eduardo Cunha, Petra Costa, Dilma Rousseff e uma funcionária do Palácio do Planalto não identificada nominalmente. O foco recai em como o agenciamento enunciativo materializa o conflito polifônico e as posições-sujeito na construção dos sentidos de democracia no documentário. Sob a primazia da Semântica do Acontecimento, as categorias de polifonia (Bakhtin, 1977) e os modos de representação (Nichols, 2012) operam como suporte para descrever o embate de vozes e a especificidade da linguagem fílmica. A análise proposta se concentrou nos lugares de dizer e lugares de enunciação que materializam nos enunciados, por meio dos modalizadores, o agenciamento enunciativo relativo ao acontecimento político retratado, bem como a influência da voz da autora no conflito polifônico, que cria o sentido de vertigem democrática. Na análise dos enunciados, foi possível entender como o agenciamento enunciativo e a polifonia articulam as vozes individuais e coletivas, pôde-se observar a forma como o sentido de democracia se fragmenta, tenciona e se reconstrói em meio à pluralidade de discursos que atravessam o filme. Verificou-se que o conflito polifônico se instaura no centro do dizer, atravessado pelo deslocamento das figuras enunciativas e arquitetado pelo lugar social do locutor-narrador, que articula as vozes dissidentes configurando, na temporalidade própria da narrativa, as condições de dizibilidade.
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