O desencanto das utopias: rupturas entre política e poder

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14393/REVEDFIL.v33n69a2019-47643

Palavras-chave:

Utopia, Retrotopia, Política, sociedade

Resumo

O texto consiste em uma resenha da obra Retrotopia, de Zygmunt Bauman, publicada pela Editora Zahar em 2017. A obra percorre os labirintos da história da utopia e chega a retrotopia, cujo surgimento se dá devido ao divórcio, cada vez mais acentuado, entre poder e política, e o desencanto com ideias, ideais e promessas de futuro.

[...]. O autor Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, tornou-se um dos mais importantes analistas de temas hodiernos, dedicando sua vida ao estudo da condição humana. Sua formação e trajetória docente na Universidade de Varsóvia e na Universidade de Leeds, bem como sua vasta produção acadêmica, colocam-no na vanguarda dos intelectuais contemporâneos e caracterizam-no como um dos grandes pensadores da contemporaneidade.  Se para alguns ele é o conhecedor perspicaz, para outros é um ingênuo pessimista. Contudo, sua produção acadêmica possui ampla aceitação no campo das ciências sociais, nas ciências da educação, sobretudo nos estudos norteados pela perspectiva pós-estruturalista.

A partir de um diálogo com a “Utopia” de Thomas More, o autor tece seus argumentos na interlocução com diversos pensadores e com as diferentes situações cotidianas noticiadas nos principais jornais do mundo. Ele sistematiza conceitos, pressupostos, posicionamentos e críticas em uma obra densa, disposta em seis seções: a introdução, denominada de “A era da nostalgia”; o primeiro capítulo “De volta a Hobbes?”; seguido por “De volta às tribos”; “De volta à desigualdade”; “De volta ao útero”; e um epílogo, intitulado “olhando adiante, para variar”. Essas seções constituem uma espécie de inventário, que articula sentimentos e práticas retrotopianos, materializados no Lebenswelt (mundo da vida) dos sujeitos imersos na moderna sociedade líquida.

[...].

Essa epidemia global de nostalgia de que fala o autor, em vez de consolidar o futuro como ethos de esperanças e expectativas, torna-o um invólucro de medo e pesadelos. É desse cenário complexo que emerge a retrotopia como um “novo” ciclo da história da utopia, substituindo o vigor do tempo incerto que está por vir, por tentativas conscientes de iteração com aspectos bem-sucedidos do passado, projetando-os como futuro, na fantasia de harmonizar segurança com liberdade. Embora não se trate de “retorno direto a um modo de vida antes praticado” (BAUMAN, 2017, p. 14), a suposta estabilidade, o pseudorresguardo no que passou, e a ilusória faculdade de controlar o que pode acontecer, causam um distanciamento entre poder e política, destituindo a soberania do Estado e das agências capazes de regular/prover a vida social. Ao denotar que os sujeitos contemporâneos duvidam da capacidade do Estado, e de qualquer instituição, de levar as coisas a cabo e de escolher entre aquelas que devem ser feitas, o autor revela o desmonte do coletivo como uma instância política de poder e a redução da vida social à capacidade de consumir, exacerbando o âmbito pessoal como responsável pela busca das melhorias de vida.

[...].

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Biografia do Autor

Aloirmar José da Silva, Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Doutorando em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre em  Gestão em Organizações Aprendentes pela UFPB.  Graduações em Filosofia, Serviço Social, e Licenciatura em Pedagogia. Especialista em Ecumenismo e diálogo  Inter Religioso;  em Orientação Educacional; e em Gestão Educacional.  E-mail: aloirmar@hotmail.com   ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8396-5323 .    

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Retrotopia. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

BAUMAN, Zygmunt. Sobre educação e juventude: conversas com Riccardo Mazzeo. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa (PT): Edições 70, 2008.

PORCHEDDU, Alba. Zygmunt Bauman: entrevista sobre a educação. Desafios pedagógicos e modernidade líquida. Cad. Pesqui.[online]. São Paulo, v. 39, n.137, maio/ago. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15742009000200016>. Acesso em: 20 jun. 2018. https://doi.org/10.1590/S0100-15742009000200016

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Publicado

2021-01-11

Como Citar

Silva, A. J. da. (2021). O desencanto das utopias: rupturas entre política e poder. EDUCAÇÃO E FILOSOFIA, 33(69), 1703–1717. https://doi.org/10.14393/REVEDFIL.v33n69a2019-47643