Das travessias do Velho Chico ao Rio das Rãs
o Ajoujo como elo entre o léxico, memória e patrimônio cultural
DOI :
https://doi.org/10.14393/Lex-v11a2026-4Mots-clés :
Ajoujo, Léxico, Memória, Patrimônio, Rio das RãsRésumé
A experiência humana é constituída por lembranças que se formam a partir do contexto sócio-histórico e cultural de uma determinada comunidade. Nesse sentido, este artigo tem como objetivo analisar a lexia ajoujo / ajôjo enquanto patrimônio cultural expresso no repertório linguístico da comunidade rural quilombola Rio das Rãs, situada no município de Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia. A escolha da referida lexia justifica-se por sua relevância cultural e histórica no contexto ribeirinho do Vale do São Francisco, uma vez que designa um tipo de embarcação tradicionalmente utilizada nas travessias do rio São Francisco. Desse modo, as formas ajoujo e ajôjo são consideradas formas variantes de uma mesma unidade lexical, resultantes de processos fonético-ortográficos típicos da variação linguística. O estudo fundamentou-se nos pressupostos teórico-metodológicos da Lexicologia e Lexicografia. Igualmente, voltamos ao passado ao consultar dicionários dos séculos XVIII (Bluteau; Morais), XIX (Pinto), XX (Freire), retornamos ao presente, consultando dicionários no século XXI (Houaiss e Villar; Aurélio), com objetivo de estabelecer comparações entre esses períodos no que tange à: (i) definição e (ii) acepção no contexto de uso dos informantes da comunidade estudada. Buscamos ainda, a origem dessa lexia no dicionário etimológico de Cunha (2010), quando possível. A análise revelou que a lexia selecionada se encontra dicionarizada no século XX ao século XXI e ainda evidencia aspectos constitutivos do patrimônio cultural e linguístico da comunidade rural quilombola Rio das Rãs.
Téléchargements
Références
AMARAL, A. O Dialeto caipira. 3. ed. São Paulo: Hucitec; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1920.
ANTHONY, L. AntConc (Version 3.5.8) [Computer Software]. Tokyo, Japan: Waseda University, 2019. Disponível em: https://www.laurenceanthony.net/software. acesso em: 15 maio 2023.
ANTUNES, C. Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha - Minas Gerais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
BALBINO, J. C. O estudo do léxico da Comunidade Rural Quilombola Rio das Rãs - Bahia. 2025. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Vitória da Conquista, 2025.
BARBOSA, M. A. Introdução aos estudos do léxico: teoria e prática. São Paulo: Ática, 1990.
BARBOSA, M. A. O léxico e a produção da cultura: elementos semânticos. In: ENCONTRO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS DE ASSIS, 1., 1993, Assis. Anais [...]. Assis: UNESP, 1993.
BIDERMAN, M. T. C. A ciência da Lexicografia. São Paulo: Alfa, 1984.
BIDERMAN, M. T. C. A nomenclatura de um dicionário de língua. In: SEMINÁRIO DO GRUPO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS (GEL), 1., 1994, São Paulo. Anais [...]. São Paulo, 1994, v.1, n. 23, p. 24-42.
BIDERMAN, M. T. C. Léxico e vocabulário fundamental. Alfa, São Paulo, v. 40, p. 27-46, 1996.
BIDERMAN, M. T. C. Os dicionários na contemporaneidade: arquitetura, métodos e técnicas. In: OLIVEIRA, A. M. P. P.; ISQUERDO, N. A. (org.). As ciências do léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. Campo Grande: UFMS, 2001.
BIDERMAN, M. T. C. Teoria linguística: linguística quantitativa e computacional. São Paulo: Ática, 1978.
BLUTEAU, R. Vocabulário portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712 - 1728.
BOSI, E. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
BRANDÃO, C. R. O Rio São Francisco: o rio e o homem. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2016.
BRASIL. Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/conadc/1988/constituicao.adct-1988-5-outubro-1988-322234-normaatualizada-pl.pdf. Acesso em 25 out. 2025.
BRASIL. Constituição Federal (1988). Artigo 216. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/legislacao/constituicao_federal_art_216.pdf. Acesso em 28 abr. 2025.
CANGIRANA, J. L. O português afro-brasileiro: a concordância verbal de terceira pessoa do plural na comunidade rural quilombola Rio das Rãs-Ba. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Vitória da Conquista, 2019.
CARVALHO, J. J. de (org.). O Quilombo do Rio das Rãs: histórias, tradições, lutas. Salvador: EDUFBA, 1996.
CARVALHO, J. J. de. Laudo Antropológico sobre a comunidade negra de Rio das Rãs. Brasília: Universidade de Brasília, 1993.
COELHO, M. do S. V. Os Gurutubanos: língua, história e cultura. 2010. 439 f. Tese (Doutorado em Linguística e Língua Portuguesa) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG,) Belo Horizonte, 2010.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.
FREIRE, L. Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1954.
HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
HOUAISS, A. VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
IPHAN. Patrimônio Cultural Imaterial, 2023. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/. Acesso em: 30 jul. 2025.
LABOV, W. Padrões sociolinguísticos. Tradução de Marcos Bagno, Maria Marta Pereira Scherre e Caroline Rodrigues Cardoso. São Paulo: Parábola, 2008 [1972].
LE GOFF, J. História e memória. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1990.
LESSA, L. G. A importância da língua no mundo social e cultural. Linguagem e cultura, 2010. Disponível em: https://luisalessa.blogspot.com/. Acesso em 13 jul. 2025.
LUCCHESI, D. As duas grandes vertentes da história sociolinguística brasileira. D.E.L.T.A, São Paulo, v. 17, n.1, p. 97-130, 2001. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-44502001000100005
LUCCHESI, D.; RIBEIRO, I. (org.). O português afro-brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2009. p. 41-73.
MACHADO, M. A. O rio São Francisco e suas embarcações: memória, cultura e identidade ribeirinha. 1. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2020.
MAGALHÃES, C. M. CORRÊA, J. D. Patrimônio em oficinas: guia de atividades para educadores. Varginha: [s. n.], 2022.
MELO, J. N. de. PINÇANDO NOTÍCIAS. Blog de João Naves de Melo [Blogspot], 29 mar. 2018. Disponível em: https://joaonavesdemelo1.blogspot.com/2018/03/pincando-noticias_29.html. Acesso em 19 de jul. 2025.
MOLLICA, M. C. Introdução à sociolinguística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2003.
MORAIS, A. S. Diccionario da língua portuguesa. 8. ed. Rio de Janeiro: Editora Empresa Literária Fluminense, 1789.
NEVES, Z. Os Remeiros do São Francisco na literatura. Revista de Antropologia, USP, São Paulo, v. 46, n. 1, p. 161-205, 2003. DOI: https://doi.org/10.1590/S0034-77012003000100004
NORA, P. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, 1993.
PELEGRINI, S. C. A. Patrimônio Histórico e Cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
PEREIRA, A. R. PEREIRA, L. R. Novos tempos: o fim da navegação e o paradoxo do progresso nas relações sociais dos ribeirinhos do médio São Francisco (1957-1972). Anais do III Seminário de pesquisa em História Social - História, margens e fronteiras, Montes Claros/ MG - Unimontes, 2019.
PINTO, L. M. da S. Diccionario da língua brasileira. Ouro Preto: Typographia de Silva, 1832.
POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
RIBEIRO, G. A. O vocabulário rural de Passos/Minas Gerais: um estudo linguístico nos Sertões do Jacuhy. 2010. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, 2010. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/LETR-8TBNKY. Acesso em: 10 jun. 2023.
SEABRA, M. C. T. C. de; SOUZA, V.L. de. Léxicos Regionais: em busca de vocabulário rural de Minas Gerais. 1ª ed. – Campinas, SP: Pontes Editores, 2023.
SILVA JÚNIOR, J. H. da. Alto-médio São Francisco e o estudo da cultura manifestada pela população local. 2010. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, 2010.
SILVA, P. C. G.; SOUSA, A. P. Comunidades Rurais Negras Rio das Rãs-Bahia. Brasília: Arte e Movimento, 1994.
SILVA, V. S. Do Mucambo do pau preto à Rio das rãs: liberdade e escravidão na construção da identidade negra de um quilombo contemporâneo (Ensaio Etnográfico). Salvador: UFBA, 1998.
SOUZA, B. J. de. Dicionário da terra e da gente do Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2004.
SOUZA, J. E. de; ALMEIDA, J. C. D. de. O Mucambo do Rio das Rãs: um modelo de Resistência Negra. Brasília: Arte e Movimento, 1994.
SOUZA, V. L. de. Nas cacimbas do Rio Pardo: um estudo léxico-cultural. 2014. 621f. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, 2014. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/MGSS-9PEP75/1/tese_vander.unificado. vf20.pdf. Acesso em 20 fev. 2023.
TARALLO, F. A pesquisa Sociolinguística. 8 ed. São Paulo: Ática, 2007 [1985].
UNESCO. Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Brasília: UNESCO, 2002. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000147273/. Acesso em: 28 de abr. de 2026.
VIEIRA, G. G. Lendas do Velho Chico. Folha do Meio Ambiente, 22 nov. 2012. Disponível em: https://folhadomeio.com/2012/11/chico235/. Acesso em: 20 set. 2025.
WELKER, H. A. Dicionários: uma pequena introdução à Lexicografia. 2. ed. Brasília: Thesaurus, 2004.
Téléchargements
Publié
Numéro
Rubrique
Licence
© Dra. Juscimaura Cangirana Balbino, Dra. Elisângela Gonçalves, Dra. Maria do Socorro Vieira Coelho 2026

Cette œuvre est sous licence Creative Commons Attribution - Pas d'Utilisation Commerciale - Pas de Modification 4.0 International.
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
CC BY-NC-ND 4.0: Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Creative Commons Attribution License que permitindo o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria do trabalho e publicação inicial nesta revista.
Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.

