Dossiê: Performance-testemunho e as poéticas do tempo espiralar na produção contemporânea em artes visuais.
volume 7, número 2 (2026)
No livro Arquivo e repertório: performances culturais na América Latina, de 2013, Diana Taylor propõe uma crítica contundente às formas hegemônicas de produção e transmissão de conhecimento no Ocidente, evidenciando como o privilégio do “arquivo”, aqui compreendido como conjunto de registros materiais, escritos e duráveis, sustenta epistemologias coloniais que marginalizam outras formas de saber. Em contraposição, a autora elabora o conceito de “repertório”, que diz respeito às práticas incorporadas, aos gestos, às performances e às memórias vividas que são apreendidas corpo a corpo. Ao deslocar o eixo da memória do documento para a presença/corpo, Taylor evidencia que o conhecimento não reside apenas no que se conserva, mas também no que se performa, no que se atualiza continuamente na experiência vivificada.
Nesse movimento, o arquivo deixa de ser compreendido como única instância de legitimidade histórica, abrindo espaço para pensar o corpo como lugar de inscrição e transcriação de saberes. Como afirma a autora, não se trata de opor radicalmente “arquivo” e “repertório”, mas de compreender suas tensões e interdependências, reconhecendo que o predomínio do primeiro esteve historicamente vinculado a projetos coloniais de apagamento do segundo. Assim, recuperar o “repertório” implica também reativar modos de existência que resistem à fixação, à captura e à normatização.
Essa perspectiva encontra ressonância no pensamento de Leda Maria Martins, que em Tempo espiralar: performances do corpo-tela, de 2021, propõe uma concepção de temporalidade que rompe com a linearidade moderna e progressiva. Assim, compreende que o “tempo espiralar" se constitui como uma dinâmica de retorno e reinvenção, em que passado, presente e futuro se entrelaçam em contínua atualização. O corpo é compreendido como “tela” na qual se inscrevem e se reinscrevem memórias ancestrais, gestos e narrativas que não se esgotam, mas se reativam em cada performance e a cada testemunho.
Se o pensamento moderno insiste em organizar a experiência em uma sequência evolutiva, o “tempo espiralar” nos convida a perceber a persistência do vivido, a coexistência de múltiplas camadas temporais. O que retorna não é repetição, mas reconfiguração, o que se atualiza é presença viva. Nesse sentido, o corpo performático produz tempo, produz memória, produz mundo e produz “performance-testemunho”.
Ao aproximarmos essas reflexões do campo das artes visuais, consideramos a noção de “performance-testemunho”(2025), conforme elaborada por Geovanni Lima, como um desdobramento dessas críticas às epistemologias dominantes. A “performance-testemunho” se constitui como prática em que o corpo testemunha experiências históricas, sociais e afetivas que existem em um “tempo espiralar”. Trata-se de uma operação em que o gesto artístico e performativo se torna também ato de enunciação, um modo de tornar visível e sensível aquilo que foi silenciado ou invisibilizado.
Podemos dizer que a “performance-testemunho” opera na intersecção entre “arquivo” e “repertório”, ao mesmo tempo em que os desestabiliza. Ao testemunhar, o corpo produz uma memória situada, encarnada, que convoca a presença do outro e instaura um campo de relação. Assim, o testemunho é acontecimento, um ato que transforma tanto quem performa quanto quem presencia. Nesse contexto, o corpo é arquivo vivo, como repertório em ação e como testemunha implicada em deslocar os critérios de legitimação do conhecimento. Importa quais corpos performam memórias. Importa quais experiências são reconhecidas como saber. Importa quais gestos persistem e quais são interrompidos.
Em contraposição às narrativas hegemônicas que privilegiam a estabilidade, a fixidez e a universalidade, essas abordagens nos convidam a pensar o conhecimento como processo, como relação e como acontecimento. A memória amplia sua lógica de conservação para se tornar também criação contínua. O corpo deixa de ser suporte para se tornar agente. A performance deixa de ser representação para se tornar prática de mundo.
Partindo dessas reflexões, o objetivo deste dossiê é investigar as potências da performance como prática implicada, aquela que se dá na relação de corpos, tempos, espaços e narrativas. Reconhecendo a mesma como linguagem e método presentes na produção artística. Trata-se de pensar uma “poética do testemunho”, em que a arte não apenas comunica, mas cria condições de presença, de escuta e de partilha. De que modos a prática artística opera na ativação de memórias incorporadas, na reconfiguração de temporalidades e na criação de vínculos entre sujeitos e coletividades?
As poéticas que buscamos aqui devem considerar a inseparabilidade entre corpo e memória, entendendo os meios de produção de imagem e escrita como práticas sensíveis e compartilháveis, tornando a prática artística uma linguagem aberta, um gesto que articula memória e presença, arquivo e repertório, testemunho e criação. Não se trata de expor obras, mas de ativá-las em processos, de instaurar encontros, de produzir tempos e corpos outros.
Desse modo, propomos reunir nesse dossiê trabalhos que dialoguem com essas questões, contribuindo para expandir o campo das poéticas do testemunho a partir das seguintes perspectivas:
- A prática artística e a ativação de comportamentos reiterados e ancestrais;
- A performance e o testemunho na enunciação de experiências;
- A performance e a ação para a fabulação e criação de mundos possíveis;
- O corpo como arquivo vivo e campo de inscrição de temporalidades;
- As relações entre imagem e temporalidades de presença na produção artística.
As colaborações podem ser submetidas até o dia 31/07/2026 para as seções artigos, resenhas, ensaios, entrevistas e traduções, com 25.000 a 35.000 caracteres, além de autorias e curadorias. O dossiê será publicado no segundo semestre de 2026. Acesse as diretrizes para pessoas autora em https://seer.ufu.br/index.php/revistaestadodaarte/about/submissions.
O template e as orientações para autores se encontram no website da revista Estado da Arte: http://www.seer.ufu.br/index.php/revistaestadodaarte/index.
Editor convidado Prof. Dr. Geovanni Lima.
Artista Visual e Professor no Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia – IARTE/UFU
Editora convidada Prof. Dra. Adriana Magro
Professora no Departamento de Linguagens, Cultura e Educação da Universidade Federal do Espírito Santo – DLCE/UFES
Referências
LIMA, Geovanni. Performance-testemunho no campo das artes visuais. 2025. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, 2025.
MARTINS, Leda Maria. Tempo espiralar: performances do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
TAYLOR, Diana. Arquivo e repertório: performances culturais na América Latina. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
Nota da Editoria: Os autores deverão observar as diretrizes estabelecidas pela Portaria CNPq nº 2.664, de 6 de março de 2026, que institui a Política de Integridade na Atividade Científica. Os trabalhos submetidos devem respeitar os princípios de ética, transparência e responsabilidade na pesquisa, incluindo a adequada citação de fontes, a veracidade dos dados apresentados e a explicitação do uso de ferramentas de inteligência artificial, quando aplicável. Casos de plágio, fabricação, falsificação ou manipulação indevida de informações implicará a rejeição da submissão.
