A imaginação artística para além dos futuros tecno-tópicos
Capa com imagem de autoria de Nikoleta Kerinska, mostra fragmento de elemento vegetal sobre torax humano
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Palabras clave

Futuro
Retenção terciária
Protensão terciária
tecnotopia
imaginação artística

Cómo citar

A imaginação artística para além dos futuros tecno-tópicos. (2025). Revista Estado Da Arte, 6(2). https://doi.org/10.14393/EdA-v6-n2-2025-80931
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Resumen

Este ensaio[1] se inicia com uma interrogação: o que é o futuro e de que modo a humanidade, ao longo da história, buscou prevê-lo e governá-lo? Em diálogo com Rousseau, Bernard Stiegler e Yuk Hui, sustenta-se que a ideia de que futuro é indissociável do desenvolvimento da tecnologia. A evolução da “retenção terciária” (Stiegler) e da “protensão terciária” (Hui) conduziu à situação contemporânea em que o techno-logos calculador onipresente, fixa o horizonte das visões tanto utópicas (o futurismo) quanto distópicas (o cyberpunk). Para superar a miopia ética desses discursos, é necessário inventar uma imaginação radical para além do horizonte tecno-tópico. O ensaio examina dois projetos interativos de arte-ciência – “Mitigation of Shock” (Superflux, 2017‑2019) e “Aerocene Pacha” (Saraceno, 2020) – como exemplos paradigmáticos de obras que transcendem o enquadramento tecno-tópico, metabolizando a tecnologia a partir de dentro. Esses projetos artísticos se desdobram para além das imagens e das narrativas sobre a tecnologia; eles utilizam instrumentos tecnocientíficos para inverter, de modo radical, nossa maneira de pensar o que a tecnologia poderia ser, e como ela poderia contribuir para a invenção de futuros desejáveis. Animados pelo ética DIY (Do It Yourself) da experimentação e da inventividade, eles cultivam uma consciência aguda da interdependência humana com outras espécies e inteligências não humanas, bem como uma atenção rigorosa ao equilíbrio ecológico. As grandes narrativas do futuro, impregnadas de entusiasmo ou temor, cedem lugar à paciência, ao cuidado e à receptividade diante da complexidade intrínseca das situações presentes. O futuro, nesse sentido, não é nem abstrato nem vazio; embora fundamentalmente aberto à transformação, ele já está vivo no presente. Tais projetos engendram formas inéditas de cognição e afinam nossos sentidos para as potencialidades que excedem as probabilidades calculadas — aquelas mesmas que reconduzem a auto-reprodução automatizada do logos tecnocrático que rege as formas socio-políticas existentes.

[1] Este artigo foi publicado pela primeira vez em búlgaro in Ст. Ставру (ред.) Етика и бъдеще: философски траектории към убягващото бъдеще under the title: “Фиктивни наративи за бъдещето като основа за етическа рефлексия” (Future Fictions as a Ground for Ethical Reflection), Sofia: Nova Zvezda, 2024, 107-124.

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