Digital Learning Week 2026 debate o papel da inteligência artificial na educação

2026-09-21

Por Amanda Filoso

Entre 8 e 11 de setembro, a UNESCO realizou, em sua sede, em Paris, a Digital Learning Week 2026, dedicada ao tema “Education in the age of AI: Facts | Frictions | Frontiers” (“Educação na era da IA: Fatos | Tensões | Fronteiras”). O encontro reuniu mais de 1.500 participantes presencialmente, além de milhares de pessoas acompanhando a programação on-line. Ministros da Educação, especialistas, representantes do setor de tecnologia, educadores e estudantes participaram das discussões sobre as transformações provocadas pela inteligência artificial nos sistemas educacionais.

A programação partiu de questões que ultrapassam a adoção de ferramentas digitais em sala de aula, colocando em debate o que passa a ser considerado conhecimento confiável em um ambiente marcado pela produção de conteúdos feitos por inteligência artificial, os efeitos da IA sobre os sistemas educacionais e as possibilidades abertas por novas tecnologias. Entre os temas abordados estiveram segurança e soberania em IA, aprendizagem humana, autonomia docente, ensino superior e modelos de governança participativa. A proposta foi discutir como manter a agência humana, a equidade e a finalidade pública da educação no centro das decisões sobre seu futuro.

Um dos principais resultados da semana foi a adoção, em 8 de setembro, de uma declaração conjunta por mais de 25 ministros e representantes responsáveis pela educação. O documento defende que a educação seja preservada como direito humano e bem comum na era da inteligência artificial. Entre as prioridades estabelecidas estão a criação de condições para que os sistemas de IA sejam auditáveis e submetidos à supervisão pública, o desenvolvimento das competências de IA de professores e estudantes e a participação docente nas decisões sobre as tecnologias utilizadas nas instituições de ensino.

A declaração também abordou questões relacionadas à proteção de estudantes, ao uso de dados e à inclusão. Nesse sentido, o documento recomenda que a adoção de IA considere idade e estágio de desenvolvimento dos estudantes, permita interromper seu uso quando necessário e trate os dados educacionais sob uma perspectiva de interesse público. Também defende sistemas inclusivos e multilíngues, a avaliação dos custos envolvidos na adoção das tecnologias e o incentivo à portabilidade e a soluções de código aberto. A UNESCO ainda convocou fornecedores de sistemas de IA a apresentar evidências de benefícios educacionais antes da implementação, além de garantir mecanismos de explicação, auditoria e responsabilização.

As discussões também foram acompanhadas por dados sobre o uso da inteligência artificial no ensino superior. Uma pesquisa da UNESCO com integrantes da rede de Cátedras UNESCO mostrou que 93% dos acadêmicos consultados acreditam que estudantes utilizam IA generativa para produzir trabalhos, enquanto 63% percebem uma redução das capacidades cognitivas dos estudantes. A maioria dos participantes defendeu o uso da tecnologia em atividades específicas ou condicionadas à sua declaração, enquanto menos de 1% apoiou a proibição completa e 2% indicaram preferência pelo uso sem restrições.

Outro destaque da programação foi a cerimônia do UNESCO ICT in Education Prize 2026, que reconheceu duas iniciativas voltadas ao uso da tecnologia para fortalecer a aprendizagem. Na Finlândia, o projeto “Generation AI”, desenvolvido pelas universidades de Eastern Finland, Helsinki e Oulu e outros parceiros, trabalha com atividades que procuram desenvolver a capacidade dos estudantes de analisar e participar criticamente da construção de sistemas de IA. No Brasil, o projeto “Redação Paraná”, da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, utiliza inteligência artificial para oferecer apoio à produção textual, combinado à mediação dos professores. A iniciativa já alcançou cerca de 850 mil estudantes em 2 mil escolas.

A UNESCO disponibilizou para consulta pública um documento sobre governança deliberativa da IA na educação e seis textos produzidos por especialistas, que tratam de temas como segurança, adequação etária, aquisição de tecnologias e soberania. As contribuições recebidas serão reunidas em documentos de políticas públicas a serem publicados na próxima Digital Learning Week, já marcada para os dias 22 a 27 de março de 2027.

Saiba mais em: https://www.unesco.org/en/articles/education-ministers-call-education-remain-common-good-age-ai-unescos-digital-learning-week?hub=83250