Entre a confissão e a ostentação
discursos sobre a leitura em declarações envergonhadas de leitores orgulhosos
DOI:
https://doi.org/10.14393/HTP-v8n1-2026-79663Palavras-chave:
Análise do Discurso, Leitura, Leitor, Vergonha, OrgulhoResumo
Neste artigo, apresentamos uma análise de discursos sobre a leitura. Para isso, recortamos um contexto bem específico de enunciação dessa prática que consiste na declaração de leitores que confessariam ter recorrido a práticas em geral atribuídas a não leitores. Não se trata, como veremos, de declarações de pessoas não alfabetizadas ou com baixo grau de letramento. Antes o contrário. São leitores que gozam de reconhecimento dessa sua condição social e cultural e que, dada essa sua blindagem social e cultural, podem revelar práticas em geral atribuídas a não leitores, sem com isso colocarem em risco sua imagem e seu prestígio culturais. Neste artigo, analisamos uma amostra que proveio de texto publicado em 2022 no jornal “Folha de S. Paulo” (Folha), coletado em seu acervo digital. Trata-se de enunciados no qual se mobilizam as emoções do orgulho e da vergonha relacionadas à leitura, e no qual a condição leitora orgulhosa é afirmada por meio de alusão a comportamentos ou escolhas normalmente consideradas vergonhosas quando o assunto é a leitura. Ao confessar envergonhadamente não ter lido o quanto deveria na adolescência, o enunciador enfatiza sua condição de leitor ideal na maturidade. Nessa análise, apoiamo-nos em princípios da Análise do Discurso, a partir de Michel Foucault, da História Cultural da Leitura, segundo Roger Chartier, e da Sociologia da Distinção Cultural segundo Pierre Bourdieu.
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