Entre o sagrado e o estigma
a (des)qualificação do feminino na Umbanda por meio da representação simbólica da Pombagira
DOI:
https://doi.org/10.14393/Palavras-chave:
Corpo. Erotismo. Gênero. Pombagira. Religião.Resumo
Este estudo investiga a representação simbólica da Pombagira nas religiões afro-brasileiras, com ênfase na Umbanda, buscando compreender como sua imagem articula disputas em torno da qualificação do feminino nos campos religioso, estético e político. O objetivo consiste em analisar, sob perspectiva crítica e interdisciplinar, os sentidos atribuídos à entidade, especialmente nas tensões entre sacralização, erotismo, poder espiritual e marginalidade. Com metodologia qualitativa de natureza bibliográfica, ancorada na hermenêutica histórica e nos estudos de gênero, foram privilegiadas análises sobre corporalidade ritual, performance feminina e epistemologias de resistência. A investigação estrutura-se em quatro eixos: a origem simbólica da Pombagira e suas relações no panteão afro-brasileiro; os arquétipos femininos e suas ambivalências; as representações acadêmicas e religiosas entre louvação e estigma; e sua atuação como figura subversiva e espiritualmente empoderada. Os resultados parciais indicam que a Pombagira expressa formas insurgentes de religiosidade que tensionam normas patriarcais e reconfiguram o sagrado por meio do corpo, da oralidade e da estética. Conclui-se que sua imagem opera como vetor simbólico de ressignificação das espiritualidades femininas negras, demandando revisão dos marcos analíticos tradicionais.
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