A Representação do Feminino na Hagiografia Bizantina
A Vida de Marina/Marino
DOI:
https://doi.org/10.14393/787p3790Resumo
Este artigo analisa a representação e a relação entre as personagens femininas na hagiografia Vida de Marina/Marino, uma obra inserida no contexto monástico bizantino, datada do século VI. Além de buscarmos compreender a inteligibilidade de gênero proposta no documento, o estudo objetiva demonstrar que a obra funciona como um projeto eclesiástico prescritivo de domesticação da agência feminina. Metodologicamente, realiza-se uma análise discursiva da fonte, fundamentada nos conceitos de Viriarcado de Olívia Gazalé (2017), Poder Pastoral de Michel Foucault (2014) e no modelo de Corpo Único de Thomas Laqueur (2001). O estudo aponta que a narrativa demanda a obliteração da identidade feminina da protagonista, descrita como ontologicamente frágil e propensa ao mal. A santidade de Marina é chancelada exclusivamente pela adoção performática de virtudes viris, como o ascetismo e o silêncio. Na narrativa, esse silêncio não representa a mudez passiva e subordinada tradicionalmente imposta às mulheres no mundo romano, mas sim um ‘silêncio viril’: um exercício ativo de autodomínio, exigindo que a santa governe a si mesma para superar a suposta inconstância de seu gênero.