ENCARCERAMENTO EM MASSA E NÃO-CIDADANIA NO BRASIL EM GLOBALIZAÇÃO
aprisionamento como mecanismo de perpetuação/intensificação de desigualdades
DOI:
https://doi.org/10.14393/BGJ-v17n1-a2026-80691Palavras-chave:
Encarceramento, Cidadania, Neoloberalismo, Meio técnico-científico-informacional, DesigualdadeResumo
Este trabalho demonstra como os sistemas penal e carcerário brasileiros, no contexto neoliberal, operam espacialmente como mecanismos de perpetuação e intensificação das desigualdades étnico-raciais, econômicas e de acesso, contribuindo para a produção de não-cidadania. A pesquisa baseia-se na obra de Milton Santos (1978, 1979, 1986, 1987, 2011), mobilizando conceitos como meio técnico-científico-informacional, técnica, cidadania, sistemas de objetos e ações, circuitos econômicos e espaciais, produtividade espacial e os “quatro Brasis”. Articula-se essa fundamentação teórica ao cárcere brasileiro por meio dos trabalhos de Gomes (2019, 2024, 2025) e de estudos sobre desigualdades étnico-raciais que evidenciam a condição da população negra (SOUZA, 2003, 2009, 2018; NASCIMENTO, 1978), seu direcionamento à ação penal-policial (DAVIS, 2003; BORGES, 2019) e a negação da cidadania. O estudo utiliza dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional (SISDEPEN), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, para demonstrar empiricamente essas desigualdades em escalas nacional e regional. A análise aponta descompassos entre o perfil demográfico da população prisional e o das regiões Concentrada, Centro-Oeste, Amazônica e Nordeste. Com o georreferenciamento de estabelecimentos prisionais, identificam-se padrões e discrepâncias relativas a gênero, idade, cor/raça/etnia, escolaridade e procedência. Os resultados indicam que o perfil predominante da pessoa presa (homem negro, jovem, urbano e com escolaridade incompleta) expressa segregações estruturais. As análises espaciais mostram que (1) quanto mais consolidadas as dinâmicas do meio técnico-científico-informacional, maiores as disparidades prisionais; e (2) desigualdades históricas inscritas no território influenciam o agravamento das ilegalidades no cárcere.
Referências
BORGES, J. Encarceramento em massa. São Paulo: Sueli Carneiro/Pólen, 2019.
CALDEIRA, T. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. Edusp, 2000.
DAVIS, A. Are prisons obsolete?. Nova York: Seven Stories Press, 2003.
FÉLIX, S. Geografia do crime. São Paulo: UNESP - Editora Oficina Universitária, 2002.
GILMORE, R.W. Abolition Geography: Essays toward liberation. Nova York: Verso Books, 2022.
GOMES, C. Circuito espacial penal: análise do sistema penal frente à expansão do meio técnico-científico-informacional no Brasil. Tese de doutorado. São Paulo: USP, 2024.
__________. Circuito espacial penal: uma análise do punitivismo no contexto da globalização. in CARLOS, A.; CRUZ, R. Uma geografia na periferia do capitalismo. São Paulo: Annablume, 2025.
_________. O encarceramento brasileiro frente ao processo de expansão do meio técnico-científico e informacional. São Paulo: XIII ENANPEGE, 2019.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Sistema IBGE de Recuperação Automática - Dados Censo Demográfico 2022. 2025. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/ipca/brasil. Acesso em 10 jul. 2025.
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA (MJSP). Bases de Dados. Secretaria Nacional de Políticas Penais: 2024. Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/servicos/sisdepen/bases-de-dados. Acesso em: 02 jul. 2025.
NASCIMENTO, A. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1978.
SANTOS, M. A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EDUSP, 1996.
_____. A pobreza urbana. São Paulo: HUCITEC-UFPE, 1978.
_____. Circuitos espaciais da produção: um comentário. in Santos, M.; SOUZA, M. A. (Org.) A construção do espaço. São Paulo: Nobel, 1986, p. 121-134.
_____. O Espaço Dividido. São Paulo: EDUSP, 1979.
_____. O Espaço do Cidadão. São Paulo: EDUSP, 1987.
SANTOS, M.; SILVEIRA, M.L. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.
SOUZA, J. A Construção Social da Subcidadania. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
______. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
______. Subcidadania brasileira. Lisboa: Leya, 2018.
WACQUANT, L. As Prisões da Miséria. Paris: Raisons d'Agir, 1999.
______. Os condenados da cidade. Rio de Janeiro: Revan, 2007.
______. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Revan, 2003.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Dany Delfim Silbermann

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
All copyrights are reserved to authors. Reproductions of any part of this journal, including the non-commercial use of figures, maps and other illustrations, are allowed provided that the original source of publication be assigned.
