Pandemia da Palavra
a curva do negacionismo como política de morte no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.14393/HTP-v7n2-2025-79349Palavras-chave:
Pandemia da Palavra, Discurso negacionista, Arqueogenealogia, NecropolíticaResumo
O presente artigo tem por objetivo analisar os discursos negacionistas proferidos pelo ex-presidente Bolsonaro durante a pandemia de covid-19, examinando-os como práticas discursivas que, ao circular no espaço público, produziram efeitos materiais na condução da crise sanitária no Brasil. Assim, tais enunciados funcionaram como vetores patogênicos de uma Pandemia da Palavra, isto é, um contágio discursivo capaz de normalizar a morte e difundir desinformação. Metodologicamente, a pesquisa articula o emprego quantitativo da EMA para mensurar a propagação discursiva em paralelo às curvas epidemiológicas de óbitos e a aplicação do método arqueogenealógico, inspirado em Foucault (1996; 1999; 2005), para compreender as condições históricas, políticas e discursivas que tornaram possível a emergência e a repetição desses enunciados. As categorias arqueológicas (formação discursiva, enunciado, a priori histórico e arquivo) e genealógicas A ordem do discurso, biopoder/biopolítica, e o Necropoder (Mbembe, 2018) foram mobilizadas como ferramentas analíticas. Os resultados evidenciam que os discursos presidenciais se configuraram como dispositivos de poder que operaram pela banalização da tragédia e pela produção de subjetividades resistentes às medidas sanitárias. A EMA revelou a persistência e intensificação desses enunciados, que se consolidaram como curvas discursivas paralelas às epidemiológicas. A análise arqueogenealógica demonstrou que tais enunciados se inscreveram em um arquivo discursivo marcado por exclusões, interdições e privilégios enunciativos, enquanto a genealogia revelou a sua vinculação a tecnologias de poder que oscilaram entre biopolítica e necropolítica. Conclui-se que a pandemia no Brasil foi atravessada por uma dupla dimensão: biológica e discursiva. A morte, nesse cenário, não foi apenas consequência de falhas sanitárias, mas também da proliferação calculada de enunciados que instauraram uma segunda pandemia, de ordem discursiva. A noção de Pandemia da Palavra permite compreender, assim, que o discurso não apenas reflete realidades, mas atua como força patogênica, constituindo um campo de poder capaz de produzir efeitos de vida e de morte em escala social.
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