Proposta Temática - v. 5, n. 1 - Discurso, autoritarismo e grupos minorizados: uma cartografia contemporânea

2022-10-10

DISCURSO, AUTORITARISMO E GRUPOS MINORIZADOS: UMA CARTOGRAFIA CONTEMPORÂNEA

 

Amanda Braga (UFPB)

Israel de Sá (UFU)

 

Naturalizar a desigualdade, evadir-se do passado, é característico de governos autoritários que, não raro, lançam mão de narrativas edulcoradas como forma de promoção do Estado e de manutenção do poder (SCHWARCZ, 2019, p. 19).

 

No Brasil, o autoritarismo e a violência são estruturais, fazem parte da estrutura social brasileira e são intrínsecas à própria formação do país enquanto nação, conforme o comprovam nossa história colonial, nosso sistema escravocrata, nosso período ditatorial, além de nosso recorrente fomento à manutenção das desigualdades e das opressões identitárias. Mas esse diagnóstico, ainda que seja basilar, não se esgota em si mesmo. Ele deve se estender ainda ao exame das formas de silenciamento que estiveram historicamente associadas ao autoritarismo. Por aqui, o autoritarismo operou em uma naturalização ou em um apagamento das desigualdades que produzem a violência, oferecendo lastro a discursos que tentaram arrefecer aquilo que não poderia ser mais determinante. Exemplar, nesse cenário, é o mito da democracia racial (FREYRE, 2006), que abrandou, para não dizer que negou, as atrocidades que sempre perpassaram, no Brasil, as relações entre brancos e negros: um mito que impediu, em grande medida, o reconhecimento e o efetivo combate ao racismo (estrutural...). Também exemplar desse silenciamento é a fórmula segundo a qual seria “preciso esquecer para seguir adiante”, que pode ser depreendida das políticas de transição da ditadura desde a Lei de Anistia (SÁ, 2015). Isto significa que toda produção da memória da ditadura para inscrição do processo de abertura foi feita com base no apagamento das práticas de repressão que aí se deram.

Assim, não resolvemos nem a escravidão e nem a ditadura: nós apagamos aquilo que, de fato, representou cada um desses cenários – alternativa da qual decorrem, aliás, muitos dos enunciados saudosistas que hoje se dão a ver. Trata-se de uma luta pela invisibilidade da violência – característica perene em governos autoritários – que, particularmente no Brasil, trabalha em prol da continuidade histórica de alguns mitos: mitos que sustentam a ideia de que estamos em um país harmônico, avesso às hierarquias e signatário da igualdade social, no qual imperam uma democracia em sua plenitude e uma natureza paradisíaca (SCHWARCZ, 2019; CHAUÍ, 2019). Narrativas que funcionam, como se pode constatar, na base do silêncio.

É justamente como um contraponto a esse apagamento, promovido por práticas discursivas que se esquivam da história e que naturalizam os desnivelamentos sociais (de tantas ordens e em tantos níveis), que este dossiê se apresenta. Mais especificamente, espera-se receber artigos que promovam, no âmbito dos estudos do discurso em suas diversas vertentes, uma cartografia dos discursos autoritários que hoje funcionam no Brasil: tanto daqueles que se ocupam do silenciamento das violências estruturais, fazendo valer uma ideia de Brasil igualitário, quanto daqueles que denunciam as opressões e sofrem, com isto, constantes tentativas de silenciamento. Neste último caso, interessa-nos particularmente os discursos direcionados aos grupos minorizados: referimo-nos às mulheres, ao público LGBTQIAP+, às populações originárias, aos menos favorecidos economicamente, à negritude, aos imigrantes etc. O intuito é o de cartografar as opressões autoritárias para resistir às políticas de apagamento, visibilizando a opressão que atinge tais grupos e agenciando, portanto, vias de enfrentamento: um modo de valer-se da história brasileira para problematizar o presente e projetar o futuro.

 

CRONOGRAMA

Prazo para o envio de trabalhos: 20 de janeiro de 2023.

Previsão de publicação: maio/junho de 2023.

 

Referências

CHAUÍ, Marilena. Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Fundação Editoral Perseu Abramo, 2019.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal (Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil – 1). 51 ed. rev. São Paulo: Global, 2006.

SÁ, Israel de. Memória discursiva da ditadura no século XXI: visibilidades e opacidades democráticas. 2015. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/7586. Acesso em: 09 set. 2022.

SCHWARCZ, Lilia. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.